Fobias / Medos
Sofri um acidente de carro há oito meses, nada muito grave, mas desde então minhas mãos tremem só de pensar em dirigir de novo. Perdi um emprego novo porque não consegui ir na entrevista, já que fica longe demais pra ir de outro jeito. Minha família não entende por que eu simplesmente não "supero logo" e volto a dirigir. Como eu faço pra recuperar a coragem de pegar no volante de novo sem entrar em pânico?
Resposta do profissional
Helio Martins · CRP 97441
Olá, tudo bem?
É profundamente doloroso carregar um trauma que, aos olhos dos outros, parece "pequeno", mas que na sua realidade tem o poder de paralisar escolhas profissionais e gerar um abismo de incompreensão dentro da sua própria família. Quando vivenciamos um evento marcante como um acidente de carro, nosso cérebro não avalia a gravidade do estrago no parachoque; ele registra a ameaça à sua integridade física e cria uma associação automática de perigo com o ato de dirigir. O tremor nas suas mãos e o pânico antes mesmo de tocar no volante são respostas de proteção do seu sistema nervoso, que tenta a todo custo afastar você do que ele compreende ser uma zona de risco. A incompreensão das pessoas ao redor, embora machuque, vem de uma incapacidade de perceber que o trauma não respeita o calendário de expectativas dos outros e que "superar logo" não é uma escolha racional, mas sim um processo biológico de readaptação.
Para desatar esse nó que hoje limita a sua autonomia, o caminho mais seguro e consistente envolve uma aproximação gradual e respeitosa com aquilo que hoje assusta. Em vez de se forçar a enfrentar o trânsito de uma vez, o que apenas reforça o pânico, a psicologia de base científica nos ensina a reeducar a nossa mente por meio de pequenas exposições controladas e da regulação das nossas emoções no momento presente. Através de abordagens focadas na reestruturação dos nossos esquemas de vulnerabilidade e no treino de atenção plena, nós aprendemos a tolerar o desconforto físico sem que ele se transforme em uma catástrofe iminente, reescrevendo a nossa relação com o medo e devolvendo ao volante o status de ferramenta de liberdade, e não de ameaça. Você não precisa carregar essa bagagem pesada de isolamento e cobrança sem uma rede de apoio estruturada.
Diante do impacto que essa situação tem gerado na sua carreira e na dinâmica com a sua família, gostaria de propor algumas reflexões para começarmos a abrir novos horizontes: se pudéssemos acolher o tremor das suas mãos como um sinal de que o seu corpo apenas quer proteger você, como seria mudar a autocobrança por um olhar de autocompaixão neste momento? Como você imagina que seria a sensação de dar o primeiro passo em direção ao carro, mesmo que seja apenas para sentar no banco do motorista com o motor desligado, sabendo que você está no controle do seu tempo? E, por fim, de que maneira iniciar uma psicoterapia estruturada poderia ajudar você a construir um espaço seguro para resgatar sua autonomia profissional e pessoal?
Iniciar um processo terapêutico com um profissional especializado é o recurso mais indicado para que você possa vivenciar essa transição no seu próprio ritmo, com técnicas específicas para dessensibilizar o medo e resgatar a sua autoconfiança de forma sólida. Caso note que a ansiedade e o pânico estão muito intensos, impossibilitando até mesmo os primeiros passos do enfrentamento, uma avaliação conjunta com um médico psiquiatra pode ser uma excelente alternativa para dar suporte ao seu bem-estar físico e tornar o processo terapêutico mais leve e manejável.
Caso precise, estou à disposição.
Outras dúvidas sobre Fobias / Medos
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