Fobias / Medos

Preciso viajar de avião pela primeira vez em anos por causa de um compromisso de trabalho e só de pensar nisso meu corpo já fica gelado. Não durmo direito nas noites antes de qualquer viagem de avião e já cheguei a desistir de compromissos importantes só pra não passar por isso. Sei que estatisticamente é mais seguro que andar de carro, mas isso não me tranquiliza nada. Doutor, como eu encaro esse medo sem cancelar minha vida inteira por causa dele?

Resposta do profissional

Helio Martins · CRP 97441

Olá, tudo bem?

É muito comum que a nossa mente racional conheça perfeitamente as estatísticas de segurança da aviação, enquanto o nosso corpo reage de forma primitiva a uma ameaça que ele percebe como real. Quando nos vemos diante de uma situação que ativa nossos esquemas de vulnerabilidade ao perigo, o cérebro emocional simplesmente assume o controle, ignorando os dados frios sobre acidentes de carro ou avião. Essa sensação de corpo gelado e a insônia persistente não são sinais de fraqueza, mas sim o seu sistema de alerta disparando uma resposta de sobrevivência diante de uma altura ou de um confinamento que você não pode controlar. O fato de você já ter cancelado compromissos importantes mostra o quanto esse mecanismo de evitação, embora traga um alívio momentâneo, acaba estreitando os horizontes da sua vida e alimentando ainda mais o próprio medo.

Para romper esse ciclo sem precisar cancelar sua vida inteira, o caminho passa por aprender a tolerar o desconforto e reeducar a sua resposta fisiológica ao estresse. Em vez de lutar para eliminar o medo ou buscar uma calmaria mágica que a lógica não consegue trazer, o processo envolve treinar a sua mente para permanecer no momento presente, ancorando-se através da respiração e da aceitação das sensações físicas enquanto elas ocorrem. Ao trabalharmos com abordagens que integram a regulação das emoções e a flexibilidade mental, nós não tentamos "apagar" a ansiedade, mas sim expandir a sua capacidade de agir com base no que é verdadeiramente importante para você, mesmo com o medo ao seu lado na poltrona do avião.

Gostaria de convidar você a fazer um pequeno exercício de reflexão para este momento: se pudéssemos olhar além do medo de voar, o que essa viagem de trabalho representa para o seu crescimento e para os seus valores profissionais? Como seria para você experimentar a sensação de pousar no seu destino sabendo que, embora o corpo estivesse gelado na decolagem, você escolheu guiar as suas próprias ações em vez de deixar que a ansiedade decidisse por você? E, por fim, como você avalia a possibilidade de levar esse desafio para dentro de um espaço terapêutico estruturado, permitindo-se construir as ferramentas práticas necessárias para essa travessia?

O apoio de uma psicoterapia focada na regulação emocional e no enfrentamento gradual é um recurso precioso para que você possa resgatar a sua liberdade de ir e vir. Em alguns casos mais intensos, o suporte de um médico psiquiatra para um acompanhamento integrado também pode ajudar a tornar esse processo de exposição inicial muito mais manejável e seguro para o seu bem-estar. Lembre-se de que a coragem não é a ausência de medo, mas a capacidade de caminhar, ou voar, junto com ele.

Caso precise, estou à disposição.

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